E esta agora?
No sábado, 17-11-2007, resolví ir dar mais uma volta ao Jardim da Vida e colhí lá umas belas flores. Naturalmente, foi um dia com as suas altas e baixas. Passei a maior parte do dia com o Dino na Matola. Muito draft.
Ao final da tarde, após ter desistido duma viagem a Nelspruit, voltei a casa. Na verdade, voltei apenas a zona. E a malta de sempre lá estava, particulramente o Lylas e o Matave. Novamente, muito draft.
O dia de ontem foi largamente dedicado a tentativas frustradas de recuperação da sobriedade. O Idelyo e o Chama Negra apareceram pra um dedo de conversa. O meu estado não era grande coisa, sobretudo depois do embate frontal entre a minha testa e um dos pilares lá de casa. Aquilo foi a doer. Houve sangue, galo e tudo. Mas olha que isso foi no regresso à casa, no sábado. Ontem foi apenas um processo de continuidade as dores que se alastravam por quase todo o corpo (desde as jantas, que estavam todas lixadas; até ao chassis, que vibrava de dor).
Ao final da tarde conseguí, ainda que com grande esforço, ir a casa do Matave pra darmos continuidade ao High Computer Assistance Project, que está numa fase embrionária bastante intressante. Depois foi café e trabalho até depois da meia noite.
Hoje, por conseguinte, deparei-me com este papo muito fixe que o Chama me enviou. É daquelas coisas cuja dimensão me transcende. Preciso partilhar isto, pelo amor de Deus!
Muito obrigado, estimado amigo, que o Senhor dos Exércitos te proteja e guarde. Khanimambo pela sinceridade que nos une as almas.
“Pode ser-se bom e justo sem ambições de qualquer ordem, na vida ou na morte. Pode seguir-se uma linha de coerência ideológica sem nada esperar da sociedade; e uma linha de coerência moral sem nada esperar da religião. Pode ter-se uma consciência firme como rocha, num corpo destroçado por todas as misérias físicas. Pode viver-se longe do povo, num divórcio forçado, e prestar-lhe os mais interessados serviços, em intenções e em obras, em estímulos e em sacrifícios, em ideias e em actos, muito embora sabendo que tais serviços, em natureza deles próprios, jamais serão conhecidos nem porventura suspeitados. Pode ser-se fiel a uma aspiração de verdade, apesar de só a mentira e o cinismo cercarem a jangada em que vogamos à mercê dos terrores e das paixões. Pode morrer-se com sereno heroísmo, fora da convenção dos combates e recusar esse mesmo heroísmo — fingindo que se acredita na mentira piedosa dos que nos rodeiam, para os poupar, tão só, ao desgaste afectivo da atmosfera do drama. Pode morrer, pensando ainda e sempre nos outros, e só nos outros, como se fossemos a consciência que paira sobre os oceanos –prestes embora a extinguir-se como um farrapo de nuvem. Pode associar-se a mentalidade cientifica ao lirismo sonhador dos poetas. Pode amar-se aos outros como jamais alguém nos amou. Pode lutar-se por um futuro que não será nosso — nosso de nós mesmo ou da carne dos nossos filhos. Pode viver-se e morrer-se em santidade laica sem que haja, sequer, a autoconsciência disso, e sem que um intelectualismo treinado nas consolações do abstracto nos dê rumores desse alvo. Pode ter-se o bravo senso comum de Sancho Pança num corpo e alma de Quixote. Pode albergar-se o pudor duma independência quase altiva, que não deixa aceitar sequer a doença própria como um encargo familiar ou alheio – e estender a cada passo a mão da solidariedade ao nosso próximo. Pode viver-se como um justo no seio da injustiça como um abnegado no seio do egoísmo, como um estóico no seio da futilidade e da sordidez, como um cidadão de amanhã no seio da noite medieval. Pode morrer-se pedindo desculpa das próprias canseiras dum enterro e dos esquálidos palmos de terra que vamos ocupar no chão sem fim...”
Mário Sacramento in “Obras de Mário Sacramento 1, Diário, Junho, 13 pp. 41, 42”



A ideia de colocar uma foto do 