segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Um Presente Do Chama Negra.


E esta agora?

No sábado, 17-11-2007, resolví ir dar mais uma volta ao Jardim da Vida e colhí lá umas belas flores. Naturalmente, foi um dia com as suas altas e baixas. Passei a maior parte do dia com o Dino na Matola. Muito draft.

Ao final da tarde, após ter desistido duma viagem a Nelspruit, voltei a casa. Na verdade, voltei apenas a zona. E a malta de sempre lá estava, particulramente o Lylas e o Matave. Novamente, muito draft.

O dia de ontem foi largamente dedicado a tentativas frustradas de recuperação da sobriedade. O Idelyo e o Chama Negra apareceram pra um dedo de conversa. O meu estado não era grande coisa, sobretudo depois do embate frontal entre a minha testa e um dos pilares lá de casa. Aquilo foi a doer. Houve sangue, galo e tudo. Mas olha que isso foi no regresso à casa, no sábado. Ontem foi apenas um processo de continuidade as dores que se alastravam por quase todo o corpo (desde as jantas, que estavam todas lixadas; até ao chassis, que vibrava de dor).

Ao final da tarde conseguí, ainda que com grande esforço, ir a casa do Matave pra darmos continuidade ao High Computer Assistance Project, que está numa fase embrionária bastante intressante. Depois foi café e trabalho até depois da meia noite.

Hoje, por conseguinte, deparei-me com este papo muito fixe que o Chama me enviou. É daquelas coisas cuja dimensão me transcende. Preciso partilhar isto, pelo amor de Deus!

Muito obrigado, estimado amigo, que o Senhor dos Exércitos te proteja e guarde. Khanimambo pela sinceridade que nos une as almas.

“Pode ser-se bom e justo sem ambições de qualquer ordem, na vida ou na morte. Pode seguir-se uma linha de coerência ideológica sem nada esperar da sociedade; e uma linha de coerência moral sem nada esperar da religião. Pode ter-se uma consciência firme como rocha, num corpo destroçado por todas as misérias físicas. Pode viver-se longe do povo, num divórcio forçado, e prestar-lhe os mais interessados serviços, em intenções e em obras, em estímulos e em sacrifícios, em ideias e em actos, muito embora sabendo que tais serviços, em natureza deles próprios, jamais serão conhecidos nem porventura suspeitados. Pode ser-se fiel a uma aspiração de verdade, apesar de só a mentira e o cinismo cercarem a jangada em que vogamos à mercê dos terrores e das paixões. Pode morrer-se com sereno heroísmo, fora da convenção dos combates e recusar esse mesmo heroísmo — fingindo que se acredita na mentira piedosa dos que nos rodeiam, para os poupar, tão só, ao desgaste afectivo da atmosfera do drama. Pode morrer, pensando ainda e sempre nos outros, e só nos outros, como se fossemos a consciência que paira sobre os oceanos –prestes embora a extinguir-se como um farrapo de nuvem. Pode associar-se a mentalidade cientifica ao lirismo sonhador dos poetas. Pode amar-se aos outros como jamais alguém nos amou. Pode lutar-se por um futuro que não será nosso — nosso de nós mesmo ou da carne dos nossos filhos. Pode viver-se e morrer-se em santidade laica sem que haja, sequer, a autoconsciência disso, e sem que um intelectualismo treinado nas consolações do abstracto nos dê rumores desse alvo. Pode ter-se o bravo senso comum de Sancho Pança num corpo e alma de Quixote. Pode albergar-se o pudor duma independência quase altiva, que não deixa aceitar sequer a doença própria como um encargo familiar ou alheio – e estender a cada passo a mão da solidariedade ao nosso próximo. Pode viver-se como um justo no seio da injustiça como um abnegado no seio do egoísmo, como um estóico no seio da futilidade e da sordidez, como um cidadão de amanhã no seio da noite medieval. Pode morrer-se pedindo desculpa das próprias canseiras dum enterro e dos esquálidos palmos de terra que vamos ocupar no chão sem fim...”


Mário Sacramento in “Obras de Mário Sacramento 1, Diário, Junho, 13 pp. 41, 42”

terça-feira, 13 de novembro de 2007

The Law Of Attraction




Esta é Pra ti, Chama Negra aka Paulo Nhantumbo, pela constante presença e amparo na vida espiritual:


Before anything that you want to happen can happen, you have to have a desire that it will happen. You have to believe that it can happen. And you must expect it to happen.

Believe... it will pop up into your life!

Esta é pra ti, meu caro Martin Matave, lá do fundo...
I Believe . .
Have a seat . . . Relax . . . And read this slowly.
I believe -. That just because two people argue, it doesn't mean they don'tlove each other. And just because they don't argue, it doesn't mean they do.
I believe - . That we don't have to change friends if we understand that friendschange.
I believe - . That no matter how good a friend is, they're going to hurt youevery once in a while and you must forgive them for that.I believe - . That true friendship continues to grow, even over the longestdistance. Same goes for true love.
I believe - . That you can do something in an instant that will give youheartache for life.I believe - . That it's taking me a long time to become the person I want to be.
I believe - . That you should always leave loved ones with loving words. It maybe the last time you see them.
I believe - . ! That you can keep going long after you think you can't.
I believe - . That we are responsible for what we do, no matter how we feel.
I believe - . That either you control your attitude or it controls you.
I believe - .. That heroes are the people who do what has to be done when itneeds to be done, regardless of the consequences.
I believe - . That money is a lousy way of keeping score.
I believe - . That my best friend and I can do anything or nothing and have thebest time.I believe - . That sometimes the people you expect to kick you when you're down,will be the ones to help you get back up.
I believe - . That sometimes when I'm angry I have the right to be angry, butthat doesn't give me the right to be cruel.
I believe - . That maturity has more to do with what types of experiences you'vehad and what you've learned from them and less to do with how many birthdaysyou've celebrated.
I believe - . That it ! isn't always enough to be forgiven by others. Sometimesyou have to le arn to forgive yourself.
I believe - . That no matter how bad your heart is broken the world doesn't stopfor your grief.
I believe - . That our background and circumstances may have influenced who weare, but we are responsible for who we become.
I believe - . That you shouldn't be so eager to find out a secret. It couldchange your life. Forever.
I believe - . Two people can look at the exact same thing and see somethingtotally different.
I believe - . That your life can be changed in a matter of hours by people whodon't even know you.
I believe - . That even when you think you have no more to give, when a friendcries out to you - you will find the strength to help.
I believe - . That credentials on the wall do not make you a decent human being.
I believe - . That the people you care about most in life are taken from you toosoon.I believe - That you should send this to all of the people that you believe in!.I just didWhat lies behind us and what lies before us are tiny matters compared to whatlies within us...~
Be Blessed~

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Ainda Na Ressaca Da Visita Do Morreira.

A foto à direita ilustra um momento marcante, no espaço artístico-cultural do CREISPU. Um workshop cheio de vida, conhecimento e emoção. Simplesmente marcante.
Da esquerda para a direita, Dércio Nhantumbo, Moreira Chonguiça e Iva, namorada do primeiro. Coube-me o papel de gravar esta imagem fixa num mundo em constante movimento.

Espero, sinceramente, que a vida conserve esses sorrisos, determinação e firmeza- e que, ao longo da Lenda Pessoal de cada um de vocés, nem os momentos mais trágicos vos tirem a vontade viver e ajudar a viver.

O texto abaixo, retirado de Maktub, indescritível obra do célebre autor brasileiro Paulo Coelho, é uma dedicatória a vocés, habitantes do Universo Oculto, amantes do Muitas-Vezes-Incompreensível, crentes da Lei da Atração, e espero que vos ajude a mitigar a dor ao longo do percurso rumo aos vossos sonhos.

Um velho eremita foi certa vez convidado para ir até à corte do rei mais poderoso daquela época.
- Eu invejo um homem santo que se contenta com tão pouco - disse o rei.
- Eu invejo Vossa Majestade, que se contenta com menos do que eu - respondeu o eremita.
- Como é que vocé pode dizer isso, se todo este país me pertence? - disse o rei, ofendido.
- Justamente - disse o velho eremita. - Eu tenho a música das esferas celestes, tenho os rios e as montanhas do mundo inteiro, tenho a Lua e o Sol, porque tenho Deus na minha alma. Vossa Majestade, porém, tem apenas este reino.


Muita paz, saúde, amor, alegria e felicidades. Stick around.



terça-feira, 6 de novembro de 2007

Crescendo à Sombra de Paulo Coelho, Meu Mestre.

Estou relendo Maktub, emblemática (talvez até mística) obra de Paulo Coelho.
Engraçado... todas as vezes que releio este livro volta-me uma velha sensação, repleta de antagonismos e ironia, que me faz sentir simultaneamente pequeno-e-grande. Pequeno porque confirmo que, efectivamente, jamais chegarei aos calcanhares deste Guerreiro da Luz (não que a minha busca espiritual se resuma nessa procura insatisfeita, mas não ignoro que todas as manhãs quando acordo procuro superar o que fui até ao dia anterior) e, por mais que leia e investigue, há coisas na vida que "nunca" perceberei.

Ao ler Maktub, dizia, também me sinto Grande, na medida em que sinto que permanece em mim uma indiscutível vontade de aprender e crescer, aceitando o erro e a derrota não como fins em si e/ou por si, mas como princípios no processo de aquisição do conhecimento.

Voltarei a comentar acerca da paz espiritual que os textos de Paulo Coelho me trazem, mas por agora tenho que sair.

Espero que o texto abaixo, retirado de Maktub, possa preencher as entrelinhas que me escaparam.

Quem o diz é o próprio Paulo Coelho...

Saímos pelo mundo em busca dos nossos sonhos e ideias. Muitas vezes colocamos nos lugares inacessíveis o que está ao alcance das mãos. Quando descobrimos um erro, sentimos que perdemos tempo, buscando longe o que estava perto. Culpamo-nos pelos passos errados, pela procura inútil, pelo desgosto que causamos.

Diz o mestre:Embora o tesouro esteja enterrado em sua casa, você só irá descobrí-lo quando se afastar. Se Pedro não tivesse experimentado a dor da negação, não teria sido escolhido como chefe da Igreja. Se o filho pródigo não tivesse abandonado tudo, não seria recebido em festa pelo seu pai. Existem certas coisas nas nossas vidas que têm um selo que diz: «Você só irá entender o meu valor quando me perder – e me recuperar.» Não adianta querer encurtar este caminho.

Isto é simplesmente fenomenal...

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Um workshop com o Moreira Chonguiça

Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007


Após a rotina do trabalho, moral em cima, descendo À Politécnica, onde me esperam o Dércio Nhantumbo e a Iva, sua namorada, para uma tarde repleta de emoções, experiencias e música. O workshop será, basicamente, dirigido por Moreira Chonguiça, célebre saxofonista moçambicano radicado na última "terra firme" do sul do continente africano (Cape Town).



O homem reflecte, de facto, a grandeza da sua obra, ou seja, não é daqueles artistas que a gente olha e começa logo a pensar na possibilidade de não ser o verdadeiro autor das músicas que canta, ou dos quadros que assina. Acima de tudo, é um indivíduo do seu tempo, que está a par dos acontecimentos à sua volta, que sonha.


Após a sessão de perguntas-e-respostas houve, naturalmente, um prolongado momento de música. Aquilo começou logo a aquecer: Jam Session. Havia ali uma malta muito porreira, pronta pra saltar ao palco e avivar as nossas emoções. E houve festa. O Bino, como sempre, teve uma presença formidável em palco. É engraçado que, todas as vezes que o vejo tocar, fico com aquela sensação de pequeneza perante a grandeza do homem.


O Sufixo, esse caso ímpar na história moderna da música produzida em Moçambique, também nos brindou com o ritmo das suas batidas. Começou pela bateria, sua casa, e logo em seguida foi pulando de vento em pompa, mexendo no teclado, cantando, enfim, foi uma cena marcante.


Gostei de ouvir o Moreira a falar da Lei da Atracção, da Energia que governa o Universo. Ele também é de opinião que pensamentos transformam-se em coisas.


Foi uma tarde memorável. Aprendí muito...


Força ai, oh Moreira, que Deus te proteja e guarde!


quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Jack Johnson

A ideia de colocar uma foto do Jack Johnson neste blog não é nada mais nada menos que uma tentativa de "provocar" alguns amigos meus, que sei de antemão que são, tal como eu, loucos pelas transcendentes músicas deste rapaz do Havai, Honolulu, que de lá saiu aos 17 anos pra cursar cinema em California, EUA. Particularmente o Walter, Leme Nosso, Paulo Brown, Dércio Nhantumbo e o Martin Matave.
Jack "descobriu-se" como músico durante a sonorização de seu primeiro filme de surf, "Thicker Than Water". Actualmente, ele é o vocalista e guitarrista, contando com a participação de Adam Topol na percussão e bateria e, por outro lado, com o distinto Merlo Podlewski, no baixo.
O primeiro disco da banda foi "Brushfire Fairytales", lançado no primeiro més de 2001 pela Enjoy Records, um selo independente de Andy Factor J. P.
As primeiras músicas de Jack chegaram a mim através de dois amigos suiços, Nicola Carpi e Cyril Gfeller, numa digressão que fazíamos em Malawi, na gravação do filme Chemusa Star, no segundo semestre de 2005. Fiquei com o disco durante mais de um ano, sem nunca me dar tempo para escutá-lo condignamente - até que, em finais de 2006, ouví upside down, numa festa em casa do Walter "Blood". De lá até cá, confesso, nunca mais parei de "perseguir" o Jack.
As músicas de Jack Johnson inspiram-me de tal maneira que, escutando-as, dissipa-se toda a tristeza que de mim se aproxima. Aproveito, aliás, a convidá-lo a dar uma vista de olhos nas suas letras - garanto que não te vais arrepender.

Um abraço forte e, se a esse extremo chegares, boa audição!

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Sentimentos

Cá por mim, uma coisa é deveras certa: sentimentos como ansiedade, paixão, saudade, amor, carencia, entre outros, foram, são e serão sempre os mesmos - muda, porém, a nossa forma de vivenciá-los, na medida em que se expande o nosso horizonte de expectativas, transformando-se, por outro lado, o ambiente social em que estamos inseridos.
Em momentos de pesar, dor, mágoa, geralmente, somos possuídos por pensamentos negativos, deixando, ainda que inconscientemente, vibrar toda essa negatividade em nossa própria áurea espiritual e, por que não, influenciando para que a nossa fisionomia transpareça a nossa descrença na superação do mal que nos aflige. Passado algum tempo, no entanto, já superada a dor e a incompreensão e incongruencia dalguns factos da vida notamos, muitas vezes com profundo pesar, que, afinal, não havia motivos suficientes para nos afogarmos naquele copo de água.
Imaginemos uma situação em que pretendemos fazer uma retrospectiva da nossa vida, começando pelos tempos mais antigos, através duma persistente recorrencia ao sub-consciente, rebuscando todas aquelas imagens, vozes e dados da infancia, para posteriormente percorrermos a adolescencia até a juventude ou, quiçá, a fase adulta. Aquele menino que precisava de ser acompanhado a escola, que tinha medo da própria sombra, tímido e repleto de incertezas... aquele menino não se parece mais connosco! Mas, ora me corrijam se estiver errado, a timidez do século XX continua a ter a mesma essencia (não digo razões) que a do século XV. O amor, desde que foi amor, é amor. Nós é que, segundo as influencias do ambiente que nos rodea, tendo em conta as experiencias vividas e transmitidas, nos vamos moldando, uns aceitando, outros negando, que esse(s) sentimento(s) se expresse com naturalidade, como se fosse a primeira vez.
Por vezes sento e tento encarar a realidade da minha própria vida e, com certa ingenuidade, me surpreendo com a quantidade de realizações que a mim chegaram nestes últimos tempos - e me lembro, com sorriso, do quanto eu duvidava delas! Mas, novamente, as realizações não são novas, sempre existiram, sempre houve uma forma de chegar até elas... ampliou-se, no entanto, o meu horizonte de expectativas, a minha crença no realização do que anteriormente julgava impossível.
Quantas vezes me pergunto se estou realmente acordado ou sonhando, mesmo caminhando. Quantas outras, dormindo, me questiono, ainda que movido pelas forças do sub-consciente, isto é, imerso no universo oculto, se estarei realmente sonhando (dormindo) ou simplesmente acordado e imaginando que sonho. Na realidade, a experiencia de vivenciar um sonho não se difere tanto do estar desperto. Quando olho para o passado, lembrando-me de momentos alegres que viví, não os vejo como sendo tão diferentes dos momentos que ilusoriamente viví em sonhos.
A palavra "saudade", dizia Gabriel O Pensador, só existe em portugues mas (em todos os idiomas) há sempre uma expressão para evocar a ausencia. Assumo a possibilidade do cantor não citar o pensamento com essas exactas palavras, mas a essencia é basicamente a mesma.

Apeteceu-me dizer, disse. Sentí necessidade, expressei os meus sentimentos.

Um abraço forte ao Paulo Brown (surfando em Xai-Xai, meu kamba?), ao Leme Nosso (ainda curtindo a de Mueda, meu chapa?), ao Martin Matave (na Multi-Businesse ainda vai rolar muita grana, meu mano) e ao Walter Blood (os tais gajos... tu sabes, bro, o sucesso vem ai!) e a todos os Habitantes do Oculto.

Gibran Kahlil Gibran

Amigo

E um adolescente disse: "Fala-nos da Amizade."
E ele respondeu, dizendo:
"Vosso amigo, é a satisfação de vossas necessidades. Ele é o campo que semeias com carinho e ceifais com agradecimento. É vossa mesa e vossa lareira. Pois ides a ele com vossa fome e o procurais em busca da paz. Quando vosso amigo manifesta seu pensamento,não temeis o "não" de vossa própria opinião, nem prendeis o sim.E quando ele se cala, vosso coração continua a ouvir o seu coração. Porque na amizade, todos os desejos, ideais, esperanças,nascem e são partilhados sem palavras, numa alegria silenciosa. Quando vos separeis de vosso amigo, não vos aflijais. Pois o que vós ameis nele pode tornar-se mais claro na sua ausência,como para o alpinista a montanha aparece mais clara, vista da planície. E que não haja outra finalidade na amizade a não ser o amadurecimento do espírito. Pois o amor que procura outra coisa a não ser a revelação de seu próprio mistério não é o amor, mas uma rede armada, e somente o inaproveitável é nela apanhado. E que o melhor de vós próprio seja para o vosso amigo. Se ele deve conhecer o fluxo de vossa maré,que conheça também o seu fluxo. Pois, que achais seja vosso amigo para que o procureis somente fim de matar o tempo? Procurai-o sempre com horas para viver. Pois o papel do amigo é o de encher vossa necessidade, e não vosso vazio. E na doçura da amizade, que haja risos e o partilhar dos prazeres. Pois no orvalho de pequenas coisas, o coração encontra sua manhã e se sente refrescado.

Khalil Gibran
Do Livro "O Profeta"

A Lei da Atracção

Ouvi falar da Lei da Atracção, pela primeira vez, há cerca de 2 meses atrás, através do pai de um amigo, o ADam Ennes, que se dizia um homem realizado e super feliz com todos os acontecimentos da sua vida, a começar pela sua linda família, um óptimo emprego, dinheiro, etc. Para ser franco, embora me parecesse estranha e dalguma forma inacreditável, a lei da atracção me cativou pelo simples facto de estar intimamente relacionada com muitos aspectos da minha própria vivencia.
Sempre acreditei, por exemplo, que neste mundo alguém tem a chave da nossa alma. Essa pessoa pode até viver bem perto de nós, ali, logo ao lado, ou pode simplesmente habitar nos confins das Caraíbas. A verdade, porém, é que, caso esteja predestinado, dalguma maneira esse "mensageiro" da nossa salvação interior chega até nós (um encontro imprevisto no autocarro, um email, um telefonema, etc).
Por outro lado, há já alguns anos que tenho uma pedra, a qual me acompanha em todas as minhas viagens - presente do meu distinto amigo Quincas (Meu Eterno Mestre); é nela que descarrego todos os meus amores e desamores. Relaciono a Lei com muitos dos ensinamentos contidos nos livros de Dale Carnegie, alguns extractos de Dalai Lama, Mahtama Gandhi, Jíri Toman, Martin L. King Jr. que ao longo dos anos e vejo que, na realidade, se ela fosse falsa não teria chegado até aos meus dias. Estou crendo nela e depositando todas as minhas esperanças no bem-estar que ela me pode proporcionar. Pra começar, já não tenho medo de sonhar, ou seja, não me limito a aspirar pelas "coisas" que o meu salário pode comprar/pagar. Estou de braços abertos, expondo os meus sonhos, desejos e ambições, acreditando que o Universo irá me responder, positivamente.
Inspiro-me na célebre frase de Mahatma: "uma mentira não se torna verdade por meio de ampla divulgação, assim como a verdade não se transforma em mentira porque ninguém a enxerga."
Boa sorte pra todos os peregrinos... afinal a vida é feita dos extractos e colecções destes pequenos (no fundo do tamanho do universo) detalhes. Aliás, muitos perdem por terem medo de perder, citando Paulo Coelho.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Reinaldo Ferreira

Se eu nunca disse que os teus dentes...

Se eu nunca disse que os teus dentes
São pérolas,
É porque são dentes.
Se eu nunca disse que os teus lábios
São corais,
É porque são lábios.
Se eu nunca disse que os teus olhos
São d'ónix, ou esmeralda, ou safira,
É porque são olhos.
Pérolas e ónix e corais são coisas,
E coisas não sublimam coisas.
Eu, se algum dia com lugares-comuns
Houvesse de louvar-te,
Decerto buscava na poesia,
Na paisagem, na música,
Imagens transcendentes
Dos olhos e dos lábios e dos dentes.
Mas crê, sinceramente crê,
Que todas as metáforas são pouco
Para dizer o que eu vejo.
E vejo olhos, lábios, dentes.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Mulher Negra - Leopold Senghor

MULHER NEGRA

Mulher nua, mulher negra
Vestida de tua cor que é vida, de tua forma que é beleza!
Cresci à tua sombra; a doçura de tuas mãos acariciou os meus olhos.
E eis que, no auge do verão, em pleno Sul, eu te descubro,
Terra prometida, do cimo de alto desfiladeiro calcinado,
E tua beleza me atinge em pleno coração, como o golpe certeiro
de uma águia.
Fêmea nua, fêmea escura.
Fruto sazonado de carne vigorosa, êxtase escuro de vinho negro,
boca que faz lírica a minha boca
savana de horizontes puros, savana que freme com
as carícias ardentes do vento Leste.
Tam-tam escultural, tenso tambor que murmura sob os dedos
do vencedor
Tua voz grave de contralto é o canto espiritual da Amada.
Fêmea nua, fêmea negra,
Lençol de óleo que nenhum sopro enruga, óleo calmo nos flancos do atleta,
nos flancos dos príncipes do Mali.
Gazela de adornos celestes, as pérolas são estrelas sobre
a noite da tua pele.
Delícia do espírito, as cintilações de ouro sobre tua pele que ondula
à sombra de tua cabeleira. Dissipa-se minha angústia,
ante o sol dos teus olhos.
Mulher nua, fêmea negra,
Eu te canto a beleza passageira para fixá-la eternamente,
antes que o zelo do destino te reduza a cinzas para
alimentar as raízes da vida.

LEOPOLD SENGHOR

Ele tb é filho dum Judeu... Lenny Kravitz.

Lenny Kravitz é, sem sombra de dúvidas, um grande artista: ídolo por execelencia. Impressiono-me não somente com as suas líricas - romanticas, na sua maioria - como também me questiono inúmeras vezes: Como é que um gajo tão desenfreado e louco dos cornos é capaz de escrever coisas tão bonitas e vestir daquele jeito? E aqueles brincos? O cabelo?
Isso só acontece porque bebí muito do preconceito que mina as actuais sociedades. A gente ve o cabelo, mas não imagina a pureza e grandeza do coração. O clássico erro de usar simples dados - factos observados - e precipitar-se a concluir.
Tenho estado a ouvir o seu Greatest Hits, que engloba temas dos seus mais antigos trabalhos discográficos. Can´t get you off my mind, Again, American Woman, Fly Away, entre outros, fazem deste album uma autentica maravilha. Muita pena não ter com quem discutir as temáticas que ele questiona e aborda. Quantas vezes Fly Away me recorda um bom Grunge dos míticos Nirvanna?
Revistas várias fazem alusão ao facto de ele ter adoptado duas crianças. Tendo em conta o perfil do Mestre Kravitz, lembro-me do Cachimbo da Paz de Gabriel Pensador. Proibiram o Cachimbo, que no fundo não stressava a ninguém, e legalizaram uma droga bem pior, a cerveja, que inclusive foi a causa principal dum grave atropelamento que resultou na morte dum padre e um casal. É o mesmo, num outro angulo de visão, que acontece com o autor de Stillness of Heart: é um tipo extrovertido pro burro, mas simultaneamente sentimental e(provavelmente) amável.
Tente ouví-lo, creio que se vai espantar com o que sai do coração deste toxicodependente.

Como Aprender a Estudar - E. Macamo e T. Huo

Estou relendo COMO APRENDER A ESTUDAR de Teles Huo e Elísio Macamo. Obra fascinante e de grande contribuição no ambito académico.
Estou particularmente feliz com a versatilidade e independencia dos capítulos, temas e conteúdos. É aconselhável, sem sombra de dúvidas, ler a obra na íntegra, mas admite-me uma leitura aleatória, no sentido de ler um assunto tratado na página 52, por exemplo, que é a ESCUTA E TOMADA DE NOTAS, para posteriormente ler MODÉSTIA E HUMILDADE, na página 26.
Tendo o livro aqui comigo, por que não transcrever algumas citações? Espero não estar cometendo nenhum crime.
Dizem-nos os intelectuais E.M.e T.H. que «o princípio básico do ensino superior é de que o discente é suficientemente sensato para aprender ao seu próprio ritmo. Se é verdade que o currículo estabelece o conteúdo e as etapas do que é ensinado, não é menos verdade que as preferencias que os estudantes trazem consigo, ou que desenvolvem durante os cursos, são determinantes para o ritmo que eles incutem aos estudos. Uns interessam-se por questões teóricas enquanto que outros dão preferencia ao empírico. Uns interessam-se por assuntos estritamente sociais enquanto outros se interessam por temáticas económicas. Uns são pela dimensão histórica, outros pela política. Face a estas preferencias diversificadas a universidade não pode de forma alguma estabelecer um currículo capaz de servir satisfatoriamente os interesses que este último traz à superfície.
Posto isto, coloca-se ao estudante o problema de saber como corresponder aos seus interesses particulares sem, contudo, descurar os parametros impostos pela universidade. Como seleccionar os conteúdos e estabelecer um equilíbrio entre interesses pessoais e currículo? Estas preocupações são legítimas e precisam de uma resposta à medida. Em nossa opinião saber ouvir e tomar notas pode constituir uma resposta adequada ao problema. Saber ouvir e tomar notas são duas faces da mesma moeda.»
Façamos algum comentário, ainda que superficial. Em conversas com amigos e colegas tenho abordado um assunto que se aproxima muito ao tema acima transcrito. Estou cursando tecnologias e Sistemas de Informação na USTM e um dos problemas com que vários estudantes se deparam é justamente a insatisfação perante o currículo. É preciso admitir que existe, efectivamente, aquilo que corresponde ao interesse particular ou pessoal do estudante, aquilo que ele aspira e/ou ambiciona, por um lado, e aquilo que a Universidade dispõe e oferece, o seu currículo, por outro. Torna-se necessário, por conseguinte, procurar um equilíbrio entre a oferta e a disponibilidade. Um bom estudante deve ser capaz de se interessar não apenas com a matéria que lhe agrada e parece de fácil compreensão, mas sobretudo com aquela que lhe parece chata, difícil e pertinente.
Estou adorando reler este livro... é provável que ele me acompanhe durante grande parte do meu trajecto rumo à sabedoria, ou contemplação, na expressão do filósofo e pensador grego Platão.
Estão de parabens, embora não precisem do meu complemento, estes dois intelectuais!

Rudyard Kipling

Se puderes....

Se puderes conservar a calma, quando todos em torno de ti se desnortearem e por isso te culparem –
Se puderes confiar em ti mesmo, quando todos de ti duvidarem, e ainda tolerar a dúvida deles –
Se puderes esperar sem te fatigares, ser caluniado sem tecer intrigas, ser odiado sem te render ao ódio –
Se puderes sonhar sem te deixar vencer por teus sonhos –
Se puderes pensar sem resumir no pensamento teu único objectivo –
Se puderes ouvir a verdade que disseste, deturparda e invertida pelos parvos ou perversos, sem condenares os homens –
Se puderes ver destruídos os edifícios que levantaste em tua vida, e em silêncio reconstruí-los com os recursos gastos –
Se puderes juntar tudo quanto ganhaste e arriscar tudo por uma causa ideal, que ninguém compreende, perder tudo e recomeçar do início, sem nunca murmurar nem dizer nenhuma palavra sobre teu prejuízo –
Se puderes estimular teu coração, os nervos e os músculos para te servirem, depois de esgotados por derrotas e decepções, com o idealismo da intacta mocidade –
Se puderes falar às multidões sem contaminar as tuas virtudes, frequentar reis sem perder a tua simplicidade –
Se nem os mais ferozes inimigos nem os mais devotados amigos te puderem ferir –
Se puderes confiar serenamente em todos os homens, mas em nenhum cegamente –
Se puderes guardar inviolável fidelidade ao próprio Eu sem deixar de assimilar o que os outros têm de bom –
Se nem elogios nem vitupérios te puderem iludir sobre a tua verdadeira bondade ou maldade –
Se puderes preencher o inexorável minuto da tua vida com os sessenta segundos que representam o seu valor passado –
Se puderes, no meio das vociferações de teus inimigos, pedir ao Eterno: Pai, perdoa-lhes –
Se puderes, através da escuridão da hora final da existência, vislumbrar estrelas e auroras –
Então, meu amigo, o mundo será teu e tudo o que ele contém...
E, mais ainda, tu serás HOMEM...
Homem sobre-humano...
Homem quase divino...
Se puderes....

Ensinamentos do Mestre...

As sábias palavras que se seguem são da autoria de Paulo Coelho, célebre escritor brasileiro, cuja genialidade já ajudou milhares de mentes a mitigar o seu sofrimento interior em todo mundo. Pra mim ele é um autentico mestre e os seus ensinamentos reflectem muitos dos contornos da minha própria Lenda Pessoal, ou seja, me encontro em cada detalhe, em cada vírgula, do que traduz a sua literatura.

É por isso, aliás, que decidí partilhar contigo este pequeno texto, extraído da imortal obra MAKTUB. E, efectivamente, estava escrito:

Saímos pelo mundo em busca dos nossos sonhos e ideias. Muitas vezes colocamos nos lugares inacessíveis o que está ao alcance das mãos. Quando descobrimos um erro, sentimos que perdemos tempo, buscando longe o que estava perto. Culpamo-nos pelos passos errados, pela procura inútil, pelo desgosto que causamos.

Diz o mestre:
Embora o tesouro esteja enterrado em sua casa, você só irá descobrí-lo quando se afastar. Se Pedro não tivesse experimentado a dor da negação, não teria sido escolhido como chefe da Igreja. Se o filho pródigo não tivesse abandonado tudo, não seria recebido em festa pelo seu pai.
Existem certas coisas nas nossas vidas que têm um selo que diz: «Você só irá entender o meu valor quando me perder – e me recuperar.» Não adianta querer encurtar este caminho.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Matave&Heckle.

Foi numa noite de Sexta-feira, dia 20 de Julho de 2007. Há menos de tres semanas. Depois do trabalho, cheguei a casa, livrei-me do traje formal, equipei-me e fui ao meu jogging. Quando regressei, após um merecido e inevitável duche, lá me lancei ao meu eterno café, ao ritmo de Jack Johnson.
Inesperadamente, o telemóvel tocou. Era o Chama Negra aka Paulo Brown, solicitando a minha presença no Spring Time II. Gente próxima à minha sobriedade bem sabe que não sou de me perder em qualquer noite, mas ignorar um pedido do Brown seria uma forma injusta de deteriorar o meu próprio sentido de existencia. Também estava precisando do papo que, afinal, viemos a ter.
Lancei-me à noite...
Entre um copo e outro, aguardava pelo telefonema do Martin Matave, esse mesmo, metido num gorro. Assumo que o leitor sabe que ele agora exerce as suas funções de IT no Xai-Xai. E não tardou, o tipo ligou-me. Já estou em Maputo, bro, deve ter dito.
A foto acima foi tirada após quase uma garrafa de vinho tinto. Vinho de uvas, claro. E, acima da bebedeira, ela representa uma amizade que se pretende eterna (pelo menos enquanto em nós palpitar o coraçãozinho).

Um abraço bem forte aos companheiros de luta, especialmente tu, meu caro Matave.

Eu e os outros da má vida.

Para melhor descrever o tamanho da amizade que o meu coração nutre por vós, estimados companheiros de luta, nada melhor que partilhar este lindo poema de Vinicius de Moraes, escritor brasileiro nascido no Rio de Janeiro.

PROCURA-SE UM AMIGO

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.


É claro que encontro em vós mais do que o virtual sabor da amizade. Muito obrigado pela constante prersença e carinho. Até sempre.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A felicidade - Sérgio Tivane

A Felicidade

Durante abastados anos da minha vida andei preocupado com a questão da felicidade. Queria saber se, efectivamente, o homem podia ser totalmente feliz. Fíz algumas [ingénuas] investigações, típicas da adolescência, procurando solidificar um ideal individual de acordo com o que os outros pensavam, sem nunca me dar tempo para criar um conceito próprio.
Naquela época da minha vida, confesso, embora tenha me esforçado bastante, não encontrei nenhuma definição clara e convincente da felicidade, assim como não encontrei em livro algum uma teoria coerente, sustentada por factos ligados à realidade da minha vida.
Tive sempre a curiosidade de saber se os que viviam rodeados de luxo e de riquezas materiais, que vestiam elegantemente, conduziam bonitos carros e participavam em eventos socialmente apreciados, eram realmente mais felizes que eu — que nunca tivera nenhuma daquelas coisas na esfera real da minha existência, apenas em fingimentos e/ou devaneios. Reparava com preciosa atenção aos rapazes da mesma faixa etária que a minha, cujos pais tinham condições para levá-los ao cinema, teatro, piscinas públicas, etc, e ainda compravam-lhes brinquedos caríssimos, matriculavam-lhes em escolas privadas altamente reconhecidas e, como se isso não fosse suficiente, pagavam-lhes passagens aéreas para férias no exterior – vendo todas essas condições que ostentavam sem precisar de fazer esforço algum, julgava que eles eram ou tinham maiores possibilidades de se tornarem pessoas felizes.


Segundo o conceito de felicidade que tinha naquela época, consciente ou inconscientemente, eu detinha todas as condições necessárias para ser uma pessoa infeliz pois, antes do mais, pertencia a uma família não abastada; frequentava uma escola pública que, no auge do seu reconhecimento como instituição de ensino, não chegou a superar o grito duma formiga entalada na sola dum desses tantos sapatos assassinos que se espalham por ai; vivia no subúrbio; era céptico, tímido e, enfim, condenado a limitações de vária ordem.
Mas fui crescendo, viajando, conhecendo e convivendo com pessoas de diferentes culturas, bebendo sempre novas filosofias e perspectivas de vida – e, paulatinamente, a minha visão do mundo tornou-se mais ampla e precisa.
Vários são os acontecimentos que, directa ou indirectamente, contribuiram para a minha mudança de mentalidade, isso não posso ignorar, mas claro está que existem/existiram os mais relevantes. Na provincia da Zambézia, por exemplo, conviví com vários empregados domésticos que, ganhando menos de duzentos meticais por mês, eram pessoas mais felizes e harmoniosas que os seus próprios patrões – não porque esse baixo salário pudesse satisfazer todas as suas necessidades, mas porque eles haviam aprendido a agradecer a Deus pelo que conseguiam e, naturalmente, a colaborar com aquilo que não podiam alterar em suas vidas. Esse facto despertou-me certa curiosidade, sobretudo porque eu vinha de uma socialização fria, tipicamente urbana — em que as pessoas eram extremamente possessivas, egocêntricas e se preocupavam demais com a satisfação material, o prestígio social e o bem-estar das suas famílias, colocando os fins como justificativos dos seus meios, actos e atitudes, ou seja, exteriorizando uma visão maquiavélica da vida.
Geralmente, com a rigorosidade duma função contínua, as pessoas dos grandes centros urbanos dão mais valor ao dinheiro, aos caprichos e ao que gastam ou consomem, ignorando completamente a sua integridade pessoal, valores e normas ética e moralmente aceites, pois, entre outros, carecem de empatia e humanismo. Todavia, parafraseando o ilustre Kheleza, o que é mais importante “ser mais” ou “ter mais”?
Dando continuidade às minhas viagens e à ampliação da minha visão sobre o mundo e os seus habitantes, em Tete acumulei alguns relatos de pessoas que só lavavam as suas roupas e tomavam um banho de verdade quando chovesse, mas mesmo assim viviam com um sorriso estampado nos rostos. Também em Maputo, numa certa noite em que eu e um amigo, o Sérgio Jossias Faife, vínhamos da casa da sua namorada, a Nina, e encontrámos duas irmãs paralíticas, em Benfica, vendendo cigarros. Logo ali na Praça, no meio daquele frenético vai-vem dos chapas e gente desnorteada, bem ao lado do famoso J.J. Vendo-nos, uma delas chamou-nos e pediu que as acompánhassemos até a Segunda Rua, onde viviam, porque elas eram incapazes de empurrar as carrinhas com as suas próprias mãos.
Enquanto caminhávamos, sentia-me petrificado e perguntava-me como é que Deus podia permitir que uma crueldade daquelas se debatesse sobre aquelas duas pobres coitadas. Não conseguia conter a minha cólera e descontentamento perante o Divino, anulando todos os desígnios que o Senhor dos Exércitos operara em minha vida. Aquilo era areia demais para o meu camião. Duas meninas, paralíticas, mergulhadas no frio e trevas da noite, vendendo cigarros, aturrando um bando de bêbados insensíveis e gente desonesta, indiferente ao sofrimento envolvido naquele mísero negócio. Espantosamente, ao contrário do que podia imaginar até nas minhas mais utópicas fantasias, elas sorriam e conversavam animadamente, demonstrando o seu conformismo ou, porque não, a sua alegria de viver. Agradeciam-nos pela generosa ajuda e tempo que lhes concedemos.
O parágrafo acima lembra-me uma frase de Dale Carnegie: há tanta paz em pleno campo de batalha quando o homem já percebeu o porquê do sofrimento e o sentido divino da dor. Doutro modo, talvez me custasse mais compreender aquela situação.
Na realidade, os relatos marcantes são vários, pois em quase todos os lugares por onde passei acompanhei histórias de gente que vivia na miséria total, mas encarava a vida com sorriso. Estou falando de gente que aprendeu a dar valor às pequenas coisas. Gente que ainda olha o céu com intenção de contemplar a beleza das estrelas, da lua, e não apenas para consultar se continuam lá, fixas.
Por outro lado, também conviví com gente que tinha “todas” as condições para ser feliz, mas era pura e simplesmente desencantada. Em Malawi, por exemplo, conhecí um jovem alemão de origem suiça, o Alex, que era professor de informática numa escola de ensino superior Polytechnic Acquaintance, em Blantyre. O tipo constituia um exemplo vivo duma pessoa infeliz, deprimida, invejosa, frustrada, etc, etc, etc – mas, curiosamente, vivia numa linda casa, cuja renda era paga pela universidade onde ele lecionava; tinha um salário óptimo e regalias que só terminavam no mais infinito.
Ainda em Blantyre, conheci um velho grego, o Tom, que era o dono do Kabula Lodge, onde eu e o Martin Schaer ficámos hospedados por algum tempo. O Tom tinha uma família, uma casa extremamente invejável, bons carros, uma conta bancária bem gorda [presumo!], mas nem por isso era dos tipos mais felizes que conhecí. Estava sempre só, ausente, tristonho, lembrando-se dos tempos em que, na sua opinião, a República de Malawi era um país mais digno e exemplar – o que, de certo modo, demonstrava o seu inconformismo, a sua dificuldade em aceitar as mudanças que a vida embarga e, sobretudo, a sua incapacidade de deixar de chorar pelo leite derramado.
O Tom amava o Adolfo Hitler, dizia que ele tinha sido um verdadeiro herói alemão, cujo carácter devia ser adoptado por todas as gerações vindouras. Nem mesmo a sua requintadíssima biblioteca o trazia alegria.
Não por questões ligadas ao género ou a superioridade masculina, mas os relatos de pessoas económica e socialmente estáveis mais penosos que detenho provém de mulheres que, por motivos vários, não posso nem devo mencionar os seus nomes. Possessivas, egocêntricas, invejosas, fofoqueiras, incultas, que passam as suas vidas esperando que alguém pise numa casca de banana e escorregue, essas mulheres não vivem nem contribuem para o desenvolvimento sustentável e equilibrado do mundo, apenas existem.
Muitos, tal como eu no passado, se enganam pensando que o poderio material lhes trará, algum dia, a verdadeira felicidade.
Muitos, tal como eu no passado, dão mais valor àquilo que lhes falta e ignoram completamente tudo quanto conseguiram (despendendo ou não muito esforço).
Muitos, tal como eu no passado, confundem a felicidade com momentos de alegria e emoção.
Na minha mais sincera opinião, não é nenhum diploma, uma casa ou um carro, que nos podem tornar pessoas felizes. Essas coisas podem até nos trazer um certo mérito social/familiar, algum prestígio e, porque não, alguma satisfação – sobretudo num país como o nosso onde, na prática, um dos efeitos negativos mais marcantes da globalização é a desvalorização total e completa dos saberes que não podem ser comprovados por meio de um certificado/diploma. Somos, parafraseando Valete, ditados de G8 maneiras.
Contudo, sejamos sinceros enquanto tivermos o poder de dizer a verdade: a felicidade não reside na satisfação mundana nem na realização material do homem. Pois, como todos sabemos, o homem não vive só de pão, ele necessita de desenvolver também a sua componente espiritual, o seu intelecto, aprender a controlar as suas pulsações instintivas, os seus nervos e, sobretudo, a ver os outros homens como seus semelhantes.
Na sua Lei Moral Interior ou Imperativo Categórico, afirmava Kant que devíamos agir sempre de tal forma que pudéssemos desejar simultanemente que a regra segundo a qual agimos fosse uma lei universal. Claro está que esta Lei Moral Interior de Kant pode ser reformulada de várias outras formas credíveis, eis um exemplo concreto: quando faço alguma coisa, tenho de ter a certeza de que desejo que todos façam o mesmo numa situação semelhante.
A Bíblia diz que a boca fala aquilo que o coração está cheio – e, tomando o devido cuidado para não generalizarmos as coisas até ao ponto de as viciarmos o verdadeiro sentido, julgo que essa afirmação deve ser considerada correcta. Portanto, seguindo esse raciocínio, que nos perdoem os Anti-Cristos, o nosso centro reside na nossa interioridade, neste caso específico o coração. De maneira que, se nos propusermos a purificar os nossos corações, existe uma quase indiscutível possibilidade de [em todas as situações das nossas vidas] tomarmos atitudes dignas de louvores e conseguirmos ser felizes ou, no mínimo, tornar os outros mais alegres. É por isso, aliás, que insisto em dizer que a verdadeira felicidade não virá com um diploma, muito menos com uma casa ou um carro – embora isso não signifique, de modo algum, que não devemos pretender obter tais coisas. Lembro-me de Oscar Wilde dando votos à educação formal e académica mas, simultaneamente, deixando bem claro que as coisas mais belas da vida não se aprendem, encontram-se.
A verdadeira chave deste emaranhado denominado felicidade reside no nosso comportamento, na conduta moral que nos guia, na nossa espiritualidade, na nossa fé. Afinal de contas, o homem não é senão aquilo que lhe dita o seu Eu, isto é, a sua componente interior – que, sabemos, é algo susceptível à educação e à mudança – associada ao seu meio social e limitações.
É possível, mesmo em situações de extrema depressão e mortes, uma pessoa manter-se feliz, dizia o meu grande amigo Jaime Chivite.
A nossa felicidade é uma questão bastante individual. Tem a ver com o espírito de cada um de nós. Não é uma questão de exterioridade, dizia Dale Carnegie.
Muitos pobres-infelizes não seriam ricos-felizes mesmo se se tornassem donos da Microsoft. Teriam, provavelmente, momentos bastante alegres, isso não devemos negar, seria muita insensatez da nossa parte, mas não nos enganemos pensando que eles seriam felizes.
A dinâmica dos nossos tempos obriga-nos constantemente a fazermos um êxodo para o exterior das nossas próprias vidas. Viciamo-nos e tornamo-nos dependentes de coisas mesquinhas, desde as drogas até a moda. Temos sempre uma tendência [talvez inconsciente] a superar o nosso próprio Eu. Queremos sempre ser os maiores. Os melhores entre os mais aplaudidos. A sociedade educou-nos assim, também isso deve ficar claro. Somos vítimas de um sistema
[1].
Crescemos ouvindo que devíamos sempre passar de classe, ir a igreja, ser comportadinhos, o cabelo bem penteado e as calças na cintura — e não será de um momento ao outro que nos livraremos desse eco das experiências da nossa infância. Afinal de contas, isso se tornou parte integrante da nossa própria identidade. Isso somos nós – e nós somos isso.
Todavia, agora que somos ou nos julgamos mais crescidinhos, o nosso nariz já é pertença nossa e, para melhor defendê-lo, talvez seja tempo de começarmos a perguntar PORQUÊ? até nas coisas que nos parecem mais insignificantes. Porquê passar? para ser doutor. Ser doutor para quê? para ter uma vida social e económica estável. Para quê ter uma vida social e económica estável? para viver bem, ter uma reputação social, ser respeitado, comer e beber do melhor. Mas o que significará tudo isso para mim? Será que vale a pena mentir, roubar, matar, por causa da egoísta satisfação do meu ego?
Claro está que isso de querer saber PORQUÊ não é coisa para todos, não senhor. Dizia o outro que a poucos é dado o dom de querer saber. Não sei exactamente “porquê” mas nas sociedades modernas existem pessoas que apenas seguem o trajecto dos outros. Que não vivem, apenas existem. Sim, estou a falar de pessoas que, por exemplo, mesmo aprendendo sobre a ciência e o desenvolvimento tecnológico, a sociologia e a medicina moderna, a filosofia e a matemática, pura e simplesmente não desenvolvem nenhum conceito/conhecimento inédito/individual em algum desses tantos ramos do saber. E o que dizer desses camaradas que, enquanto os seus irmãos morrem lutando, eles simplesmente palitam os dentes
[2]? Serão felizes esses camaradas medricas, que enchem o fardamento de sangue e se estendem ao chão em plena batalha, fingindo estar mortos? Chegará a autêntica primavera na vida desses camaradas egocêntricos que apenas pensam nos seus próprios desejos carnais?
Não direi que “não chegará” para evitar um pessimismo irreverente, mas tenho ainda muitas dúvidas.
Alguns pensadores chegaram mesmo a afirmar que a felicidade não existia, assim como não existiam o desespero e a tristeza, mas apenas “níveis intermédios” – e o papel do homem era procurar equilibrar-se entre esses níveis. O grande escritor sueco Henning Mankell, no seu livro Secrets in the Fire, afirma que “happiness is what we realise we have had, after we have lost it” [a felicidade é aquilo que vêmos que tivemos, após termos perdido
[3]].
Eu sou de opinião que a partir do momento em que cedemos as coisas materiais e damos primazia à vida espiritual somos perseguidos por uma inevitável possibilidade de alcançarmos a felicidade sem precisarmos de despender muita energia. Encontramos sem procurar aquilo que os outros procuram sem encontrar, dizia-se nos tempos mais antigos. Por outro lado, citando Platão, o caminho para a felicidade não existe, a felicidade é o caminho.

Na esperança de que este tema tenha sido do seu sincero interesse, despeço-me cordialmente, acreditando que em breve manteremos um novo diálogo nesta mesma vertente literária, embora esteja claro que o objectivo não é influenciar ou viciar a tua visão do mundo que nos rodea, mas partilhar contigo alguns saberes que muitos ignoram e, sobretudo, despertar o teu interesse sobre o Sentido da Vida que, provavelmente, será o nosso próximo texto.

God is always close and available
In:
Happy moments, praise God
Difficult moments, seek God
Quiet moments, worship God
Painful moments, trust God
Every moment, thank God
Deus está sempre próximo e disponível
Em:
Momentos felizes, louve a Deus
Momentos difíceis, busque a Deus
Momentos tranquilos, honre a Deus
Momentos de dor, confie em Deus
Todo o momento, agradeça a Deus
[4]
By Jaime Chivite

[1] Entendo sistema como sendo uma forma de governo ou constituição política ou social de um Estado.

[2] Parafraseando o Reginaldo Isaías Uamba em Guerreiros, escrito em 2002.
[3] A tradução é nossa, não do autor.
[4] A tradução é nossa, não do autor.
Caso queira me contactar, escreva para este endereço.

A meta de passagem deve ser de 100%...

Quando lí o título da entrevista fiquei com a impressão de que mais uma vez era testemunha duma liberdade de expressão (e de imprensa, provavelmente) mal veiculada, ou seja, usada em prol da audácia do jornalista mas em contradição com os verdadeiros ditos do entrevistado. No entanto, uma leitura integral permitiu-me digerir na íntegra o que daquela conversa se registou e publicou no jornal Notícias.
Talvez até fosse uma ambição louvável, a do nosso ministro: uma meta de passagem na ordem dos 100% representaria um uso totalmente racional e sustentável de todo um leque de oportunidades que a Educação dispõe e oferece. Todavia, sejamos francos, o nosso nível de ensino, tendo em conta as condições e limitações sociais, materiais e humanas à que os professores e alunos estão sujeitos, é uma auténtica utopia.
Por outro lado, devemos considerar a coisa do ponto de vista de avaliação do próprio curriculum. O ideal seria que a actualização do que se ensina na escola fosse de tal maneira dinamico, eficiente e rentável, que não fosse sequer necessário alcançar os tais 100%, visto que os resultados, per si, seriam satisfatórios. Ambições dessa natureza podem levar-nos a uma situação em que, por exemplo, teremos aprovações na ordem dos 100%, mas continuaremos a viver de produtos e culturas importados.
Continuarei abordando este assunto, mas agora o trabalho me chama.

Abraço aos companheiros de luta.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Entrevista com Deus.

Eu sonhei que tinha feito uma entrevista com Deus. "Então, você gostaria de me entrevistar?", perguntou Deus. "Se o Senhor tiver tempo...", eu disse. Deus sorriu. "Meu tempo é a eternidade"."Que questões você tem em mente para mim?" "O que mais Lhe surpreendeu na raça humana?" Deus respondeu... "Que êles se aborrecem com a infância, querem crescer rapidamente, e depois desejam voltar a ser criança novamente"."Que êles perdem a saúde para ganhar dinheiro, e depois gastam o dinheiro para recuperar a saúde". "Por pensarem ansiosamente acerca do futuro, esquecem de viver o presente". "Vivem como se nunca fossem morrer, e morrem como se nunca tivessem vivido". Deus então pegou minha mão e nós ficamos em silêncio por um momento. Então perguntei... "Como Pai, quais são as lições de vida que o Senhor quer que os Seus filhos aprendam?" "Êles devem aprender que não podem obrigar ninguem a amá-los. Mas podem amar a todos". "Aprender que não é bom julgar os outros". "Êles devem aprender a perdoar, praticando o perdão". "Aprender que leva apenas alguns segundos para abrir uma ferida profunda naqueles que amam, e que pode levar muitos anos para curá-las". "Aprender que uma pessoa rica não é aquela que mais tem, mas a que menos necessita". "Aprender que existem pessoas que as amam profundamente, mas que ainda não aprenderam a expressar ou mostrar seus sentimentos" "Aprender que duas pessoas podem olhar para a mesma coisa e vê-la de modo diferente". "Aprender que é desejável que êles perdoem ao outro, mas devem tambem perdoar-se a sí próprios". "Obrigado pela Sua atenção", eu disse. "Mais alguma coisa que o Senhor gostaria de dizer aos Seus filhos?" Deus sorriu e disse: "Apenas que êles saibam que eu estarei aqui... sempre!"