quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A felicidade - Sérgio Tivane

A Felicidade

Durante abastados anos da minha vida andei preocupado com a questão da felicidade. Queria saber se, efectivamente, o homem podia ser totalmente feliz. Fíz algumas [ingénuas] investigações, típicas da adolescência, procurando solidificar um ideal individual de acordo com o que os outros pensavam, sem nunca me dar tempo para criar um conceito próprio.
Naquela época da minha vida, confesso, embora tenha me esforçado bastante, não encontrei nenhuma definição clara e convincente da felicidade, assim como não encontrei em livro algum uma teoria coerente, sustentada por factos ligados à realidade da minha vida.
Tive sempre a curiosidade de saber se os que viviam rodeados de luxo e de riquezas materiais, que vestiam elegantemente, conduziam bonitos carros e participavam em eventos socialmente apreciados, eram realmente mais felizes que eu — que nunca tivera nenhuma daquelas coisas na esfera real da minha existência, apenas em fingimentos e/ou devaneios. Reparava com preciosa atenção aos rapazes da mesma faixa etária que a minha, cujos pais tinham condições para levá-los ao cinema, teatro, piscinas públicas, etc, e ainda compravam-lhes brinquedos caríssimos, matriculavam-lhes em escolas privadas altamente reconhecidas e, como se isso não fosse suficiente, pagavam-lhes passagens aéreas para férias no exterior – vendo todas essas condições que ostentavam sem precisar de fazer esforço algum, julgava que eles eram ou tinham maiores possibilidades de se tornarem pessoas felizes.


Segundo o conceito de felicidade que tinha naquela época, consciente ou inconscientemente, eu detinha todas as condições necessárias para ser uma pessoa infeliz pois, antes do mais, pertencia a uma família não abastada; frequentava uma escola pública que, no auge do seu reconhecimento como instituição de ensino, não chegou a superar o grito duma formiga entalada na sola dum desses tantos sapatos assassinos que se espalham por ai; vivia no subúrbio; era céptico, tímido e, enfim, condenado a limitações de vária ordem.
Mas fui crescendo, viajando, conhecendo e convivendo com pessoas de diferentes culturas, bebendo sempre novas filosofias e perspectivas de vida – e, paulatinamente, a minha visão do mundo tornou-se mais ampla e precisa.
Vários são os acontecimentos que, directa ou indirectamente, contribuiram para a minha mudança de mentalidade, isso não posso ignorar, mas claro está que existem/existiram os mais relevantes. Na provincia da Zambézia, por exemplo, conviví com vários empregados domésticos que, ganhando menos de duzentos meticais por mês, eram pessoas mais felizes e harmoniosas que os seus próprios patrões – não porque esse baixo salário pudesse satisfazer todas as suas necessidades, mas porque eles haviam aprendido a agradecer a Deus pelo que conseguiam e, naturalmente, a colaborar com aquilo que não podiam alterar em suas vidas. Esse facto despertou-me certa curiosidade, sobretudo porque eu vinha de uma socialização fria, tipicamente urbana — em que as pessoas eram extremamente possessivas, egocêntricas e se preocupavam demais com a satisfação material, o prestígio social e o bem-estar das suas famílias, colocando os fins como justificativos dos seus meios, actos e atitudes, ou seja, exteriorizando uma visão maquiavélica da vida.
Geralmente, com a rigorosidade duma função contínua, as pessoas dos grandes centros urbanos dão mais valor ao dinheiro, aos caprichos e ao que gastam ou consomem, ignorando completamente a sua integridade pessoal, valores e normas ética e moralmente aceites, pois, entre outros, carecem de empatia e humanismo. Todavia, parafraseando o ilustre Kheleza, o que é mais importante “ser mais” ou “ter mais”?
Dando continuidade às minhas viagens e à ampliação da minha visão sobre o mundo e os seus habitantes, em Tete acumulei alguns relatos de pessoas que só lavavam as suas roupas e tomavam um banho de verdade quando chovesse, mas mesmo assim viviam com um sorriso estampado nos rostos. Também em Maputo, numa certa noite em que eu e um amigo, o Sérgio Jossias Faife, vínhamos da casa da sua namorada, a Nina, e encontrámos duas irmãs paralíticas, em Benfica, vendendo cigarros. Logo ali na Praça, no meio daquele frenético vai-vem dos chapas e gente desnorteada, bem ao lado do famoso J.J. Vendo-nos, uma delas chamou-nos e pediu que as acompánhassemos até a Segunda Rua, onde viviam, porque elas eram incapazes de empurrar as carrinhas com as suas próprias mãos.
Enquanto caminhávamos, sentia-me petrificado e perguntava-me como é que Deus podia permitir que uma crueldade daquelas se debatesse sobre aquelas duas pobres coitadas. Não conseguia conter a minha cólera e descontentamento perante o Divino, anulando todos os desígnios que o Senhor dos Exércitos operara em minha vida. Aquilo era areia demais para o meu camião. Duas meninas, paralíticas, mergulhadas no frio e trevas da noite, vendendo cigarros, aturrando um bando de bêbados insensíveis e gente desonesta, indiferente ao sofrimento envolvido naquele mísero negócio. Espantosamente, ao contrário do que podia imaginar até nas minhas mais utópicas fantasias, elas sorriam e conversavam animadamente, demonstrando o seu conformismo ou, porque não, a sua alegria de viver. Agradeciam-nos pela generosa ajuda e tempo que lhes concedemos.
O parágrafo acima lembra-me uma frase de Dale Carnegie: há tanta paz em pleno campo de batalha quando o homem já percebeu o porquê do sofrimento e o sentido divino da dor. Doutro modo, talvez me custasse mais compreender aquela situação.
Na realidade, os relatos marcantes são vários, pois em quase todos os lugares por onde passei acompanhei histórias de gente que vivia na miséria total, mas encarava a vida com sorriso. Estou falando de gente que aprendeu a dar valor às pequenas coisas. Gente que ainda olha o céu com intenção de contemplar a beleza das estrelas, da lua, e não apenas para consultar se continuam lá, fixas.
Por outro lado, também conviví com gente que tinha “todas” as condições para ser feliz, mas era pura e simplesmente desencantada. Em Malawi, por exemplo, conhecí um jovem alemão de origem suiça, o Alex, que era professor de informática numa escola de ensino superior Polytechnic Acquaintance, em Blantyre. O tipo constituia um exemplo vivo duma pessoa infeliz, deprimida, invejosa, frustrada, etc, etc, etc – mas, curiosamente, vivia numa linda casa, cuja renda era paga pela universidade onde ele lecionava; tinha um salário óptimo e regalias que só terminavam no mais infinito.
Ainda em Blantyre, conheci um velho grego, o Tom, que era o dono do Kabula Lodge, onde eu e o Martin Schaer ficámos hospedados por algum tempo. O Tom tinha uma família, uma casa extremamente invejável, bons carros, uma conta bancária bem gorda [presumo!], mas nem por isso era dos tipos mais felizes que conhecí. Estava sempre só, ausente, tristonho, lembrando-se dos tempos em que, na sua opinião, a República de Malawi era um país mais digno e exemplar – o que, de certo modo, demonstrava o seu inconformismo, a sua dificuldade em aceitar as mudanças que a vida embarga e, sobretudo, a sua incapacidade de deixar de chorar pelo leite derramado.
O Tom amava o Adolfo Hitler, dizia que ele tinha sido um verdadeiro herói alemão, cujo carácter devia ser adoptado por todas as gerações vindouras. Nem mesmo a sua requintadíssima biblioteca o trazia alegria.
Não por questões ligadas ao género ou a superioridade masculina, mas os relatos de pessoas económica e socialmente estáveis mais penosos que detenho provém de mulheres que, por motivos vários, não posso nem devo mencionar os seus nomes. Possessivas, egocêntricas, invejosas, fofoqueiras, incultas, que passam as suas vidas esperando que alguém pise numa casca de banana e escorregue, essas mulheres não vivem nem contribuem para o desenvolvimento sustentável e equilibrado do mundo, apenas existem.
Muitos, tal como eu no passado, se enganam pensando que o poderio material lhes trará, algum dia, a verdadeira felicidade.
Muitos, tal como eu no passado, dão mais valor àquilo que lhes falta e ignoram completamente tudo quanto conseguiram (despendendo ou não muito esforço).
Muitos, tal como eu no passado, confundem a felicidade com momentos de alegria e emoção.
Na minha mais sincera opinião, não é nenhum diploma, uma casa ou um carro, que nos podem tornar pessoas felizes. Essas coisas podem até nos trazer um certo mérito social/familiar, algum prestígio e, porque não, alguma satisfação – sobretudo num país como o nosso onde, na prática, um dos efeitos negativos mais marcantes da globalização é a desvalorização total e completa dos saberes que não podem ser comprovados por meio de um certificado/diploma. Somos, parafraseando Valete, ditados de G8 maneiras.
Contudo, sejamos sinceros enquanto tivermos o poder de dizer a verdade: a felicidade não reside na satisfação mundana nem na realização material do homem. Pois, como todos sabemos, o homem não vive só de pão, ele necessita de desenvolver também a sua componente espiritual, o seu intelecto, aprender a controlar as suas pulsações instintivas, os seus nervos e, sobretudo, a ver os outros homens como seus semelhantes.
Na sua Lei Moral Interior ou Imperativo Categórico, afirmava Kant que devíamos agir sempre de tal forma que pudéssemos desejar simultanemente que a regra segundo a qual agimos fosse uma lei universal. Claro está que esta Lei Moral Interior de Kant pode ser reformulada de várias outras formas credíveis, eis um exemplo concreto: quando faço alguma coisa, tenho de ter a certeza de que desejo que todos façam o mesmo numa situação semelhante.
A Bíblia diz que a boca fala aquilo que o coração está cheio – e, tomando o devido cuidado para não generalizarmos as coisas até ao ponto de as viciarmos o verdadeiro sentido, julgo que essa afirmação deve ser considerada correcta. Portanto, seguindo esse raciocínio, que nos perdoem os Anti-Cristos, o nosso centro reside na nossa interioridade, neste caso específico o coração. De maneira que, se nos propusermos a purificar os nossos corações, existe uma quase indiscutível possibilidade de [em todas as situações das nossas vidas] tomarmos atitudes dignas de louvores e conseguirmos ser felizes ou, no mínimo, tornar os outros mais alegres. É por isso, aliás, que insisto em dizer que a verdadeira felicidade não virá com um diploma, muito menos com uma casa ou um carro – embora isso não signifique, de modo algum, que não devemos pretender obter tais coisas. Lembro-me de Oscar Wilde dando votos à educação formal e académica mas, simultaneamente, deixando bem claro que as coisas mais belas da vida não se aprendem, encontram-se.
A verdadeira chave deste emaranhado denominado felicidade reside no nosso comportamento, na conduta moral que nos guia, na nossa espiritualidade, na nossa fé. Afinal de contas, o homem não é senão aquilo que lhe dita o seu Eu, isto é, a sua componente interior – que, sabemos, é algo susceptível à educação e à mudança – associada ao seu meio social e limitações.
É possível, mesmo em situações de extrema depressão e mortes, uma pessoa manter-se feliz, dizia o meu grande amigo Jaime Chivite.
A nossa felicidade é uma questão bastante individual. Tem a ver com o espírito de cada um de nós. Não é uma questão de exterioridade, dizia Dale Carnegie.
Muitos pobres-infelizes não seriam ricos-felizes mesmo se se tornassem donos da Microsoft. Teriam, provavelmente, momentos bastante alegres, isso não devemos negar, seria muita insensatez da nossa parte, mas não nos enganemos pensando que eles seriam felizes.
A dinâmica dos nossos tempos obriga-nos constantemente a fazermos um êxodo para o exterior das nossas próprias vidas. Viciamo-nos e tornamo-nos dependentes de coisas mesquinhas, desde as drogas até a moda. Temos sempre uma tendência [talvez inconsciente] a superar o nosso próprio Eu. Queremos sempre ser os maiores. Os melhores entre os mais aplaudidos. A sociedade educou-nos assim, também isso deve ficar claro. Somos vítimas de um sistema
[1].
Crescemos ouvindo que devíamos sempre passar de classe, ir a igreja, ser comportadinhos, o cabelo bem penteado e as calças na cintura — e não será de um momento ao outro que nos livraremos desse eco das experiências da nossa infância. Afinal de contas, isso se tornou parte integrante da nossa própria identidade. Isso somos nós – e nós somos isso.
Todavia, agora que somos ou nos julgamos mais crescidinhos, o nosso nariz já é pertença nossa e, para melhor defendê-lo, talvez seja tempo de começarmos a perguntar PORQUÊ? até nas coisas que nos parecem mais insignificantes. Porquê passar? para ser doutor. Ser doutor para quê? para ter uma vida social e económica estável. Para quê ter uma vida social e económica estável? para viver bem, ter uma reputação social, ser respeitado, comer e beber do melhor. Mas o que significará tudo isso para mim? Será que vale a pena mentir, roubar, matar, por causa da egoísta satisfação do meu ego?
Claro está que isso de querer saber PORQUÊ não é coisa para todos, não senhor. Dizia o outro que a poucos é dado o dom de querer saber. Não sei exactamente “porquê” mas nas sociedades modernas existem pessoas que apenas seguem o trajecto dos outros. Que não vivem, apenas existem. Sim, estou a falar de pessoas que, por exemplo, mesmo aprendendo sobre a ciência e o desenvolvimento tecnológico, a sociologia e a medicina moderna, a filosofia e a matemática, pura e simplesmente não desenvolvem nenhum conceito/conhecimento inédito/individual em algum desses tantos ramos do saber. E o que dizer desses camaradas que, enquanto os seus irmãos morrem lutando, eles simplesmente palitam os dentes
[2]? Serão felizes esses camaradas medricas, que enchem o fardamento de sangue e se estendem ao chão em plena batalha, fingindo estar mortos? Chegará a autêntica primavera na vida desses camaradas egocêntricos que apenas pensam nos seus próprios desejos carnais?
Não direi que “não chegará” para evitar um pessimismo irreverente, mas tenho ainda muitas dúvidas.
Alguns pensadores chegaram mesmo a afirmar que a felicidade não existia, assim como não existiam o desespero e a tristeza, mas apenas “níveis intermédios” – e o papel do homem era procurar equilibrar-se entre esses níveis. O grande escritor sueco Henning Mankell, no seu livro Secrets in the Fire, afirma que “happiness is what we realise we have had, after we have lost it” [a felicidade é aquilo que vêmos que tivemos, após termos perdido
[3]].
Eu sou de opinião que a partir do momento em que cedemos as coisas materiais e damos primazia à vida espiritual somos perseguidos por uma inevitável possibilidade de alcançarmos a felicidade sem precisarmos de despender muita energia. Encontramos sem procurar aquilo que os outros procuram sem encontrar, dizia-se nos tempos mais antigos. Por outro lado, citando Platão, o caminho para a felicidade não existe, a felicidade é o caminho.

Na esperança de que este tema tenha sido do seu sincero interesse, despeço-me cordialmente, acreditando que em breve manteremos um novo diálogo nesta mesma vertente literária, embora esteja claro que o objectivo não é influenciar ou viciar a tua visão do mundo que nos rodea, mas partilhar contigo alguns saberes que muitos ignoram e, sobretudo, despertar o teu interesse sobre o Sentido da Vida que, provavelmente, será o nosso próximo texto.

God is always close and available
In:
Happy moments, praise God
Difficult moments, seek God
Quiet moments, worship God
Painful moments, trust God
Every moment, thank God
Deus está sempre próximo e disponível
Em:
Momentos felizes, louve a Deus
Momentos difíceis, busque a Deus
Momentos tranquilos, honre a Deus
Momentos de dor, confie em Deus
Todo o momento, agradeça a Deus
[4]
By Jaime Chivite

[1] Entendo sistema como sendo uma forma de governo ou constituição política ou social de um Estado.

[2] Parafraseando o Reginaldo Isaías Uamba em Guerreiros, escrito em 2002.
[3] A tradução é nossa, não do autor.
[4] A tradução é nossa, não do autor.
Caso queira me contactar, escreva para este endereço.

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